O humor negro abre alas ao termo 'politicamente incorreto' que com certeza muita gente já ouviu falar por aí. As redes sociais abriram uma maior visibilidade a esse tipo de humor, a televisão também, e inevitavelmente as pessoas se manifestaram, algumas a favor e outras contra. Revestido de um sarcasmo transcendental, chamou rapidamente a atenção do típico jovem de hoje, pois para curti-lo e 'entende-lo' é muito simples: esqueça o que significa respeito, valores, limites, direitos (dos outros)... se prive de tudo isso, e boas risadas!
Eu não acharia problema algum e não estaria fazendo esse post se tanta coisa não me chocasse, pois penso que certos assuntos e certas situações merecem ser totalmente desligadas da má fé dessa exposição. Quem defende esse humor LIVRE e ESPONTÂNEO se arma de uma postura tão marginal, ofende a ponto de enfraquecer os valores e a moral de assuntos que na verdade esses 'formadores de opinião' deveriam estar reafirmando.
É uma alienação de indivíduos de riso fácil, sem nenhum questionamento quanto ao que de fato é ou não inteligente, aceitável, arquitetado, e projetado. Mas não, alguém fala que a filha deficiente de alguém é feia e esquisita (todo mundo ri e dane-se o constrangimento da família), zoam com a foto de alguém que raspou a cabeça devido uma doença (todo mundo ri, e dane-se a seriedade de um câncer), o cara se internou num centro de recuperação (todo mundo ri, porque é muito engraçado, isso é tão banal), não sei lá quem morreu (todo mundo ri, porque quando a mãe desse idiota morrer ele vai ficar lá fazendo piada no enterro dela). E aos poucos as pessoas vão achando isso normal e aderindo, mas isso é fácil até onde o ofendido é o OUTRO, e é isso que se aplica e agride diretamente ao que diz respeito ao relacionamento social, à ética e ninguém pensa nisso. Ao invés de fazer uma campanha do bem, reflexiva, preferem rir de tudo isso. Isso não é ser feliz, minha gente, é ser um 'vegetal sorridente' nesse mundo de meu Deus.
LIBERDADE foi algo que serviu de luta para uma geração anterior, eles queriam ela para decidir, participar, e compartilhar o andamento do nosso país e do mundo, eles queriam poder VIVER. A minha geração está se drogando, engravidando cedo demais, adoecendo, e enfim, se MATANDO com ela. A ideia é a de que tem que se aproveitar a vida, mas que vida? E o que soa como algo tão legal, não passa de medíocre, autodestrutivo, e uma mera ilusão. É desse pensamento que eu encontro a tamanha audiência, e defesa de coisas tão grosseiras, tão agressivas e sem sentido, porque ninguém se importa com ninguém e com nada. São bebês que riem de qualquer coisa, eles não sabem de nada, só basta ter cor e movimento para abrirem aquela gengiva linda, mas marmanjões e moçonas agirem igual? As pessoas podem ter seus gostos pessoais, quem sou eu pra dizer que não, mas que instinto animal é esse de achar engraçado humilhar absurdamente pessoas e situações sérias, quando não, graves?
E no mundo em que eu vivo, eu sei, sou uma sem humor, uma caretona que precisa rir mais, uma burra que não entendo essa 'arte'... mas não, eu dou muita risada, mas que presa aquilo que acredita, logo, o que eu coloco em primeiro lugar, são os meus princípios e podem ter a certeza, que não vai ser um programa ou um idiota que se utiliza, por exemplo, da falta de cultura das pessoas para constrange-las nacionalmente que vai me fazer mudar isso.
Existem situações que você as vivenciando não haverá nada que as faça ver como engraçadas, elas precisam ser superadas, com alegria, servirão de lição, de lembrança, mas não como piada. Quando as coisas acontecem, você nunca as vê como uma piada, não quando as considera sérias demais, não quando as considera constrangedoras demais, não quando as considera dolorosas demais. As vezes nós mesmos fazemos uma piadinha, mas com a nossa dosagem, e não com a malícia de alguém que usa suas situações, sem a autorização, sem o menor respeito... só pra fazer alguém rir com isso. E antes o meu 'drama', do que a frieza com que as pessoas lidam com isso, esse 'drama' me dá a certeza de que eu ainda sou ser humano, que meu coração é de carne, minha mente é sadia e eu consigo ser sensível à alguma coisa que realmente importa.
O mal maior
não está nas piadas, mas na invasão, no ganhar méritos ao
constranger as pessoas, ou seja, o resultado sadista desse tipo de
trabalho é que surpreende. E quando você observa as pessoas
falando, é como se fosse algo muito inocente.
Um exemplo
é tipo de humor usado pelo Rafinha Bastos em seu shows, que já tem
ou tinha como titulo ''A Arte do Insulto''. Em uma de suas piadas,
o estupro era um dos temas e ele dizia o seguinte:
“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia… Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço.”
Será que isso não é engraçado? Pois bem, eu usei um álibi, contei essa piada e este riu... até que eu perguntei: - Se sua mãe ou sua irmã tivessem sido estupradas, isso ainda seria engraçado? (O silencio tomou conta do cenário). A intenção não é ofender, mas explica como isso é possível? Eu estaria pegando pesado, se não fosse a realidade de algumas pessoas... o que pode ser mais terrível para uma mulher do que ser vítima de um estupro, em um pais que não tem leis eficazes e nem justiça? Como um ser humano pode achar que existe algum tipo de respeito nisso. Como eu já falei, pode ser engraçado, mas não é racional. Se a mulher do Rafinha Bastos fosse estuprada, ou a mãe dele, essa piada não teria graça nenhuma, porque eu assisti um vídeo dele chorando, dizendo que a família dele é a coisa que ele mais preza. Lágrimas contraditórias ao trabalho dele, quais não se tornaram nem um pouco comoventes, apenas ridículas. Um cara tão inteligente, perdendo oportunidades e um prestígio sadio, por escolher uma forma baixa e escrota de humor. Pois é, mas pimenta no dos outros...
Tudo tem que ter limite, e no humor não poderia ser diferente, pois o limite é que prova quem realmente tem criatividade de fazer piadas engraçadas e que façam até mesmo uma pessoa que está sendo 'ridicularizada' rir também, sem se sentir abusada, humilhada, discriminada e por aí vai. Um dos maiores exemplos foi Chaplin, que viveu numa época onde a liberdade de expressão era restrita, mas como ele era um cara inteligente, e criativo, mesmo sem palavras, ele criticou problemas sociais. É um exemplo de que o ser humano não precisa ir nas profundezas da sua carcaça para ser simbólico. A não ser que esse humorista não acredite muito na intelectualidade de seu publico.
E eu não estou aqui tentando mudar o mundo, nem estou dizendo que sou a dona da razão, mas se eu ainda tenho direitos... entendo que um deles é expor a minha revolta quanto à algo que eu acredito ser um ato de INVOLUÇÃO. E não se espantem se daqui alguns anos, nos depararmos vivendo literalmente numa selva, por alguns seres humanos estarem perdendo a sua identidade racional. Ser imoral, prepotente, e sádico é ser legal? Pois eu amo ser uma chata e atrair pessoas chatas pra minha vida.
Humor pra mim, e ainda mais hoje em dia, tem que ser algo que me faça rir, mas depois refletir em alguma coisa aplausível, e não me fazer rir, e rir, e rir... e esquecer que depois de rir, eu tenho que ter alguma utilidade na sociedade em que eu vivo.

Isso é tão engraçado, não é mesmo?

Pois saiba que pra mim, em hipótese alguma, eu acharei nisso um motivo para rir...

Nem eles!



































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